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Cartas para Lula compartilham histórias de vida e falam de outro país

Noite no Tuca reuniu artistas e alguns dos autores das cartas endereçadas ao ex-presidente durante os 580 dias em que es

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Lula: "Estamos lutando contra os matadores da Marielle, contra os milicianos, contra pessoas que não têm medo de matar gente inocente" - Ricardo Stuckert

Durante os 580 dias em que esteve preso na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba, até 8 de novembro de 2019, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o destinatário de 25 mil cartas. Parte delas foi lida ontem (31) à noite, algumas pelos próprios autores e outras por artistas, no Teatro da Universidade Católica (Tuca), na zona oeste de São Paulo, com seus 672 lugares tomados.

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Depoimentos que misturaram solidariedade, raiva, tristeza e muitas histórias de vida, fazendo muitas pessoas chorarem. Ao final, em discurso de 40 minutos, Lula, ao defender a educação, afirmou que o atual presidente é resultado da ignorância, chamou o orçamento secreto de “podridão” e falou em “derrotar o fascismo para recuperar a democracia no país”.

O ato na Tuca marcou também o lançamento do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão, editado pela Boitempo. Trecho de cartas foram lidas por Zélia Duncan, Denise Fraga, Camila Pitanga, Preta Ferreira, Maria Ribeiro, Cleo Pires, Celso Frateschi, Grace Passô, Erika Hilton, Deborah Duboc, Leandro Santos (Mussum Alive), Cida Moreira, Tulipa Ruiz e Cassia Damasceno.

Até a ex-presidenta Dilma Rousseff e o ex-prefeito Fernando Haddad participaram da leitura. Clara Bastos (baixo) e Ana Rodrigues (piano) fizeram o acompanhamento musical. Zélia cantou Juízo Final (Nelson Cavaquinho/Élcio Soares) e Cida interpretou uma canção de Bertolt Brecht e Hanns Eisler adaptada para a peça Mãe Coragem (“Era um tempo duro, tu te lembras?”).

Filho da pobreza

Ao pedir ânimo ao ex-presidente (em uma das cartas, a autora diz que Lula não deve adoecer e que aquilo era “uma ordem”), muitas pessoas relataram trajetórias dramáticas: pobreza, violência doméstica, alcoolismo, todo tipo de dificuldade. Um dos momentos que silenciaram o público foi o da leitura da carta de Lucas Ribeiro Gomes, outro “filho da pobreza”, como se dirigiu a Lula.

Sua família reunia 19 irmãos, 10 homens e nove mulheres, mas 11 tiveram pouco tempo de vida. “Falta de médico, desnutrição, falta de quase tudo.” Em 18 de março de 1997, o potiguar Lucas saiu da casa de taipa onde nasceu e percorreu 96 quilômetros de sua cidade (o povoado de Santa Luzia, em Touros) até Natal. Seu pai só pôde lhe dar 10 reais. Ele se emocionou ao lembrar das refeições, em que a mãe só se servia – quando sobrava comida – depois dos filhos.

“Não existia Bolsa Família para amenizar a fome dos pobres, muito menos oportunidade de emprego”, lembrou Lucas, que, como muitos, destacou programas sociais dos governos Lula e Dilma. Ele conseguiu comprar um apartamento pela Minha Casa, Minha Vida. “Pior: para desespero da burguesia, ainda comprei um Celta”, emendou, arrancando risadas. E terminou citando a escritora e favelada Carolina Maria de Jesus, autora do livro Quarto de Despejo.

“Ele foi ouvido”

Antes do Brasil, o livro ganhou uma edição francesa, lançada em março, com desenhos e fotos enviados pelos autores das cartas. O trabalho foi coordenado pela historiadora e brasilianista francesa Maud Chirio, estudiosa da ditadura no Brasil. Para ela, essa história começou no dia da prisão de Lula, em São Bernardo do Campo, em 7 de abril de 2018. As cartas, disse Maud no palco do Tuca, são “a prova de que ele foi ouvido” quando pediu que as pessoas não desistissem de lutar. A equipe de pesquisadores organizou uma exposição virtual, que pode ser visitada (https://www.linhasdeluta.org).

São cartas que trazem um pouco da história recente do Brasil, escritas por contemporâneos de Lula, que acompanharam sua trajetória sindical e política. Mas também por jovens favorecidos por políticas de inclusão. Originário, como contou, de uma comunidade carente de Teresópolis (RJ), Douglas William da Silva disse que se sentiu envergonhado com o golpe de 2016, relatou violência de seu padrasto contra sua mãe e contou sua chegada à universidade.

Frio, fome, medo

A professora Miliandre Garcia, de Curitiba, a também potiguar Fátima Lima (“Estamos todos, milhões, nesse lugar onde aprisionaram o seu corpo”), o pedreiro Francisco Aparecido Malheiros (“Pensa positivo!”). A aposentadora carioca Ana Beatriz. A ativista Preta Ferreira, que escreveu quando ela própria também estava presa. Ou o antropólogo e babalorixá Rodney William: “Hoje sou bacharel, mestre e doutor, senhor presidente. Mas muitos gostariam que eu fosse apenas filho de empregada”, escreveu.

A jovem militante Marina: “Eu sou jovem, senhor presidente, e tenho medo. Quando você falou pra gente carregar o seu manto, eu espero que você saiba que a gente já carregava”. E o estudante cotista Luís Fernando Costa, que nasceu em 1989, ano em que Lula perdeu sua primeira eleição presidencial, morou “no porão de uma casa abandonada” e hoje reside em imóvel construído na primeira edição do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. Morando relativamente perto da sede da Polícia Federal, Luís ouviu o helicóptero da PF trazendo Lula preso. “Aqui fora há ainda há muito ódio contra o senhor. Daqueles que nunca sentiram frio e fome, que se deixaram levar pela irracionalidade e pelo medo.”


Cartas trazem um pouco da história recente do Brasil, escritas por contemporâneos de Lula, que acompanharam sua trajetória sindical e política / Ricardo Stuckert

Lula fez essa advertência na parte final do seu discurso, alertando para os perigos da campanha eleitoral. “Estamos enfrentando gente muito ruim. Estamos lutando contra os matadores da Marielle, contra os milicianos, contra pessoas que não têm medo de matar gente inocente.” Mas, ao mesmo tempo, disse estar em seu melhor momento, mais consciente, maduro e “esperto”. “Não sei se é o amor, mas nunca me senti tão bem”, disse o ex-presidente, que casou há pouco dias com a socióloga Janja. “Quero provar isso nos próximos anos.” Aumentar o número de jovens na escola é necessidade, não opção, disse Lula. “A ignorância não gera um estadista, gera um Bolsonaro”, emendou.

Sem idade para ter medo

Ele também falou da pobreza no país, afirmando que as pessoas estão se endividando no cartão de crédito (juros são “expropriação”) para comprar comida. E criticou até o presidente norte-americano, Joe Biden, que segundo o ex-presidente estaria enfrentando uma crise de falta de leite em seu próprio país enquanto destina bilhões de dólares para a guerra na Ucrânia. Mas também agradeceu várias vezes às pessoas que acamparam perto da PF de Curitiba e todos os dias “cumprimentavam” Lula: “Vocês fizeram eu sair sair da cadeia muito mais forte”.

A última a ler cartas foi justamente Janja. “Cartas que a gente trocou, nos fortaleceu e nos fez chegar até aqui”, afirmou. No final, Lula brincou, pedindo que as pessoas comprem “sapato com sola de borracha” para andar pelo país nos quatro próximos meses, até a eleição. “Eu não tenho idade para ter medo. Por isso, nós vamos juntos, para derrotar o fascismo e recuperar a democracia neste país.”


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